o nascimento do homem-estátua

 

O homem-estátua (mais tarde staticman) nasceu basicamente  como terapia da doença da escravidão sociomental que atormentava o meu ser consciente.  Corria o ano gregoriano de 1987. Depois de fortes distúrbios psicofísicos causados pelo miserabilismo economico-social em  confronto com as necessidades de conhecimento  e  já pelos caminhos do suicídio tive ainda forças para tentar o caminho da diferença e procurar nos 'médicos' internos a resolução do meu caso. Nessa gestação deste presente percorri a Ibérica Península calçado pelas simples botas da esperança dum aldeão; cruzei-me com passados conhecidos em ambientes desconhecidos, enfrentei doenças parecidas com a minha e ainda outras mais, fui um vagabundo do querer sobreviver  e na rua outros saltimbancos da liberdade deixavam atónitos os meus e outros  olhos. Naqueles que faziam de autómatos me fixei tirando-lhes o movimento. Companheiros de parte da estrada iniciaram-me no confronto com o público, de guitarra na mão na cidade de Perpinham perdi o medo dos olhos alheios e semeei o universo que explodiu em Barcelona, nas Ramblas, quando  parei de solidão no meio de tantos a olharem quanto tempo estava o meu corpo sem movimentos. Grande espanto dos passantes, cada vez em maior número e os suficientes a entenderem e a contribuírem para o valor da minha existência performática de guerrilha social.

 

 

breve história da quietude

As mais remotas referências à quietude enquanto manifestação consciente do ser humano encontram-se no "I CHING", no yoga, no tai chi e no zen - a oriente, e no cristianismo gnóstico (a seita dos estalagmites) a ocidente. Para uns dominar o movimento físico era o caminho para o domínio da unidade mutacional do ser, para outros as estátuas vivas dos seus corpos em elevadas colunas suportando as adversidades dos desertos, aproximavam-nos de Deus; Para todos a quietude era mais um caminho para a união do corpo e do espírito e vice-versa.

No príncipio do século vinte há um relato literário de um anónimo que se transformava em estátua viva, junto aos postos de recrutamento militar francês, protestando assim contra a primeira guerra mundial. Também no início do mesmo século se podiam observar quadros vivos realizados por mulheres no começo de alguns espectáculos de circo.

Em tempos mais recentes encontramos a quietude na dança Butô,na dança contempôranea e no teatro. É, contudo, nas ruas e praças das cidades mais livres que a quietude atinge a sua forma mais praticada e divulgada – as estátuas vivas. A partir de 1986 eu próprio fiz parte da semente na Europa e começo  em Barcelona a caminhada que me trouxe até este texto. Na Califórnia outros têm o mesmo sonho e começam as performances a que designam de "fixing".

Hoje a prática da quietude expressiva está em crescente dinâmica e existem já encontros de estátuas vivas em várias cidades (Espinho, Arnhem, Santiago do Chile, Lisboa, Léon, entre outras)

E só para que a memória não morra não podemos esquecer todos aqueles que conheceram a quietude da forma mais horrível, a tortura, às mãos de animais que de humanos apenas tinham o nome.

 

 

B.I. em prosa do homem-estátua

(Pelo seu atman)

 

António Gomes dos Santos, também conhecido como hãToino de Lírio ou o Homem-estátua  iniciou a sua actividade como performer/animador em 1987 em Perpignan, França, seguindo-se uma estadia em Barcelona onde se transformaria em Homem-estátua ou estátua viva. Em seguida viajou por toda a Europa levando o encanto da quietude às mais movimentadas pedonais ruas de outras tantas cidades.

Nos finais de 87 regressa a Portugal e começa a sua saga também em animações ditas comerciais (lojas, feiras,hotéis, exposições, espaços de lazer, etc.). A nível de espectáculos de rua o seu palco começa por ser a praça da Batalha no Porto, a que se segue a rua do Carmo e a rua Augusta em Lisboa; no Verão o seu palco preferencial é a praça Gil Eanes em Lagos (nos anos recentes a burocracia camarária afastou-o desta sua querida praça). Neste primeiro período em Portugal o Homem-estátua assiste com alegria à pedonilização de muitas ruas e praças em Portugal: a par de performances invulgares oferecidas na rua o povo português vê serem-lhe devolvidos espaços de convívio público. Nestes primeiros tempos em Portugal valeu-lhe a teimosia de granito para ultrapassar montes de problemas colocados pela polícia, por esta altura pouco habituada a lidar com a liberdade de expressão artística nas ruas.

Em julho de 1988 depois duma performance numa discoteca na Costa da Caparica, António é convidado para tentar bater o recorde mundial de imobilidade, o que consegue no Shopping Amoreiras, Lisboa, em 30/07/88 com tempo de 15 horas 2 minutos e 55 segundos, marca que será recorde mundial até 1996. Durante este período o já internacionalizado "staticman" faz inúmeras digressões, adquire conhecimentos na sua área através da frequência de workshops e participa em estágios de diversas disciplinas relacionadas com o domínio do movimento muscular, do controlo respiratório e da abstracção temporal. A escritora Lídia Jorge estuda os seus personagens e coloca-o como peça central do romance "Jardim sem Limites", ele próprio vai editando pequenos livros acompanhando as suas vivências como estátua viva. Entretanto a nova expressão artística da quietude vai ganhando novos adeptos e espalha-se por todo o mundo; começam a surgir os primeiros encontros de estátuas vivas em que o António é convidado especial (Em Portugal o Encontro de Espinho tem já uma notoriedade imensa e possibilidades de se internacionalizar e atingir o patamar do grande encontro de estátuas vivas de Arnhem na Holanda). Tem ainda tempo para colaborar com outros artistas em projectos na área do teatro, da pintura, da música e da multimedia; a quietude expressiva tinha já ganho lugar no panorama performativo deixando a perder de vista os tempos em que as autoridades olhavam de lado "aquele que se põe para ali parado".

Em 1997 um cidadão indiano bate o recorde mundial com 18 horas e 5 minutos, António responde ainda no mesmo ano, no Teatro José Lúcio da Silva em Leiria e recupera o recorde com o tempo de 18 horas 35 minutos e 15 segundos. Entretanto é um dos artistas com maior n.º de actuações na Expo 98 e depois no Parque das Nações, espaço onde em 2 de junho de 1999 consegue novo feito, desta vez o recorde mundial de marcha lenta, em que consegue percorrer 150 metros em oito horas estando sempre em movimento.

No  ano de 2002, o Homem-estátua é informado que o seu recorde de imobilidade foi de novo batido e de novo por um cidadão do berço do yoga – a Índia, com o tempo de 20 horas e 10 minutos e 6 segundos, marca obtida num happening de homenagem às vitimas indianas da guerra da independência da Índia em relação a Inglaterra. António recebe a notícia com um sorriso e aos 39 anos de idade sente-se com a maturidade psicofísica perfeita para continuar o desafio e bater de novo o recorde mundial de imobilidade desta vez também numa silenciosa e quieta homenagem a todos aqueles que fazem da paz, da liberdade e do respeito as suas divisas. Depois de conseguir a compreensão e os apoios necessários que lhe permitiram mais um exercício do seu Ken Yoga em direcção a mais um limite humano, numa viagem interior de experimentação das até aí  desconhecidas fronteiras que nos constróem e nos limitam.

E no dia 27 de Janeiro de 2003 a proeza é alcançada, mais um recorde mundial de imobilidade, com o tempo de 20 horas, 11 minutos e 36 segundos, um dia destes outro desafio se seguirá porque embora adorando a calma, o homem-estátua detesta a rotina  cinzenta e automática da sociedade moderna.

Entretanto porque as estátuas vivas também têm estômago hãToino vai continuando a apresentar varíadíssimos personagens  por outros tantos locais a par do seu amor pela escrita. Também realiza workshops de Ken Yoga e  administra massagem Ken.

Boa respiração, António.